O salário caiu, as contas chegaram juntas e não dá para pagar tudo. Qual boleto vai primeiro? A resposta não é “o maior” nem “o que está ligando mais”. Existe uma ordem que protege a sua casa, evita perder bens e corta os juros mais caros. Este guia mostra essa ordem e como aplicá-la aos seus números.
Se preferir ir direto à conta, o diagnóstico financeiro gratuito monta a sua lista em poucos minutos. O cálculo acontece no seu navegador e nada é gravado.
A resposta curta
- Contas que mantêm sua casa funcionando: moradia, água, luz, gás, alimentação e pensão alimentícia.
- Dívidas com garantia: financiamento de carro ou imóvel, em que o atraso pode levar à perda do bem.
- Dívidas de juros mais altos: rotativo do cartão e cheque especial.
- O restante: crediário, empréstimos pessoais e contas já negativadas, que entram na negociação.
1. Primeiro, o que mantém sua casa funcionando
Aluguel ou prestação da casa, água, luz, gás e comida vêm antes de qualquer dívida. Sem eles, você perde a base para organizar o resto. Atrasar a luz para pagar a fatura do cartão costuma sair mais caro: você paga multa, taxa de religação e ainda fica sem o serviço.
No caso da energia, a ANEEL exige que a distribuidora avise por escrito com pelo menos 15 dias de antecedência antes de suspender o fornecimento por falta de pagamento, e proíbe o corte às sextas, sábados, domingos, feriados e vésperas de feriado. Esse prazo serve para você negociar, não para esquecer a conta.
A pensão alimentícia merece atenção especial: é a única dívida civil que pode levar à prisão do devedor (Código de Processo Civil, art. 528, § 3º). Se ela não couber no orçamento, procure a Defensoria Pública para pedir revisão do valor antes de atrasar.
2. Depois, as dívidas com garantia
No financiamento de carro ou de imóvel, o bem costuma ficar em alienação fiduciária, ou seja, ele garante a dívida. Parcelas em atraso podem levar à retomada do bem e ao leilão. No financiamento de veículo, se o valor do leilão não cobrir o saldo, a diferença ainda pode ser cobrada de você.
Por isso essas parcelas vêm antes das dívidas sem garantia, mesmo quando os juros são menores. Se já houver atraso, procure o banco antes da segunda parcela vencida e peça por escrito as opções de renegociação.
O crédito consignado é descontado direto do salário ou do benefício, então raramente atrasa. O cuidado aqui é outro: não contratar um novo consignado para tapar buraco sem saber como vai pagar o resto.
3. Em seguida, as dívidas de juros mais altos
Entre as dívidas sem garantia, as mais caras quase sempre são o rotativo do cartão e o cheque especial. Cada mês com saldo nessas linhas faz a dívida crescer rápido. Confira a taxa mensal no contrato, na fatura ou no extrato: o Código de Defesa do Consumidor (art. 52) obriga o banco a informar juros, encargos e o valor total a pagar.
Para dívidas de cartão feitas a partir de janeiro de 2024, a Lei 14.690/2023 limita os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura a 100% do valor original. Uma dívida de R$ 1.000 no rotativo não pode passar de R$ 2.000 só com juros e encargos. O limite ajuda, mas dobrar a dívida continua sendo muito caro.
4. Por último, o restante
Crediário de loja, empréstimo pessoal com juros menores e contas antigas já negativadas entram depois. Mantenha o pagamento mínimo combinado quando puder e use essas dívidas como moeda de negociação: credores de dívidas antigas costumam oferecer descontos maiores para pagamento à vista.
Um alerta: o nome sai dos cadastros de inadimplentes depois de cinco anos (CDC, art. 43, § 1º), mas isso não apaga a dívida. O credor ainda pode oferecer acordo e, dependendo do caso, cobrar por outros meios.
Avalanche ou bola de neve: qual método usar?
Depois de garantir as contas essenciais e as dívidas com garantia, sobra decidir para onde vai o dinheiro extra. Existem dois métodos conhecidos:
- Avalanche: você paga o mínimo de todas e coloca o dinheiro extra na dívida de maior juro. É o método que gasta menos com juros.
- Bola de neve: você paga o mínimo de todas e coloca o extra na dívida de menor saldo. Você quita uma conta mais rápido, o que ajuda a manter o ânimo.
Exemplo com números ilustrativos. Você tem R$ 600 extras neste mês e duas dívidas:
| Dívida | Saldo | Juros ao mês | Juros deste mês |
|---|---|---|---|
| Cheque especial | R$ 2.400 | 8% | R$ 192 |
| Crediário da loja | R$ 600 | 3% | R$ 18 |
- Bola de neve: os R$ 600 quitam o crediário. Você deixa de pagar R$ 18 de juros por mês.
- Avalanche: os R$ 600 reduzem o cheque especial para R$ 1.800. Os juros caem de R$ 192 para R$ 144, uma economia de R$ 48 por mês.
Nesse caso, a avalanche economiza R$ 30 a mais por mês. Se você precisa de uma vitória rápida para não desistir, a bola de neve é válida. Se o objetivo é pagar menos juros, fique com a avalanche. O importante é escolher um método e seguir até o fim.
Como montar sua ordem de pagamento em 5 passos
- Liste todas as dívidas numa folha só: credor, saldo, juros ao mês, valor da parcela e se está em atraso.
- Marque as contas essenciais e as dívidas com garantia. Elas vão para o topo.
- Ordene o restante pelo juro mensal, do maior para o menor (ou pelo saldo, se escolher a bola de neve).
- Calcule quanto sobra depois das contas essenciais e dos pagamentos mínimos. Esse valor vai inteiro para a primeira dívida da lista.
- Quitou uma? O valor que ia para ela passa para a próxima da lista.
O diagnóstico financeiro faz esses passos por você: mostra quanto da renda está comprometido, coloca as dívidas em ordem e avisa quando a parcela não cobre nem os juros.
Quando renegociar e o que pedir por escrito
Renegocie quando a soma das parcelas não couber no que sobra do mês, ou quando uma dívida de juros altos estiver crescendo mais rápido do que você consegue pagar. Antes de aceitar qualquer acordo:
- Peça o valor total do acordo, o número de parcelas, a taxa de juros e o Custo Efetivo Total (CET).
- Compare o valor da parcela com o que realmente sobra no seu orçamento. Acordo que não cabe vira novo atraso.
- Guarde o acordo por escrito, com data e nome do credor.
- Negocie só por canais oficiais: aplicativo do banco, site do credor, consumidor.gov.br ou o Procon. Confira o beneficiário antes de pagar qualquer boleto enviado por mensagem.
- Cuidado com empréstimo novo para quitar dívidas. Ele só ajuda se tiver CET menor, parcela que cabe no mês e se você parar de usar o cartão e o cheque especial.
Se nada cabe no orçamento: a Lei do Superendividamento
Quando as dívidas de consumo comprometem o dinheiro das despesas básicas, a Lei 14.181/2021 permite pedir a repactuação das dívidas. Em audiência com todos os credores, você apresenta um plano de pagamento com prazo máximo de cinco anos, preservando o chamado mínimo existencial (CDC, art. 104-A).
Ficam de fora desse processo as dívidas com garantia real, os financiamentos imobiliários e o crédito rural. Para começar, procure o Procon da sua cidade, a Defensoria Pública ou o centro de conciliação (Cejusc) do tribunal do seu estado, levando contratos, faturas e comprovantes de renda e despesas. A lei abre um caminho de negociação, mas não garante desconto nem aprovação automática do plano.
Erros que atrasam a saída das dívidas
- Deixar a luz ou o aluguel atrasar para pagar o cartão.
- Pagar só o mínimo da fatura por vários meses seguidos.
- Contratar um empréstimo novo sem ter um plano para as dívidas antigas.
- Aceitar acordo por telefone sem receber as condições por escrito.
- Tentar pagar tudo um pouco e não quitar nenhuma dívida.
Experimente agora: compare duas dívidas
Informe o saldo e a taxa de juros mensal de duas dívidas que você tem em aberto, e veja qual delas custa mais caro para continuar em aberto, ou seja, qual priorizar primeiro.
Dívida A
Dívida B
Perguntas frequentes
Qual dívida pagar primeiro?
Primeiro as contas essenciais (moradia, água, luz, alimentação e pensão), depois as dívidas com garantia e, em seguida, as de juros mais altos, como rotativo do cartão e cheque especial.
É melhor pagar a dívida maior ou a menor?
O que decide é o juro, não o tamanho. Uma dívida pequena com juro alto pode custar mais do que uma grande com juro baixo. Se precisar de motivação, quitar a menor primeiro também funciona, desde que você siga o plano.
Vale a pena pegar empréstimo para pagar o cartão?
Só se o Custo Efetivo Total do empréstimo for bem menor que o do rotativo, a parcela couber no orçamento e você parar de usar o limite do cartão. Caso contrário, a dívida só muda de lugar.
Dívida com mais de cinco anos some?
O registro sai dos cadastros de inadimplentes depois de cinco anos, mas a dívida não desaparece. O credor ainda pode propor acordo e, em alguns casos, cobrar por outros meios.
Onde renegociar com segurança?
Pelos canais oficiais do credor, pela plataforma consumidor.gov.br ou pelo Procon. Desconfie de quem pede pagamento antecipado para “limpar o nome”.
Monte a sua ordem agora. Informe cada dívida na calculadora de dívidas e veja se compensa mais o método bola de neve ou o método avalanche no seu caso.
Fontes
- ANEEL: direitos do consumidor de energia
- Lei 14.181/2021 (superendividamento)
- Código de Defesa do Consumidor
- Código de Processo Civil
- Idec: teto de juros do cartão (Lei 14.690/2023)
Conteúdo educativo, revisado em 24/09/2026. Não é consultoria individual nem oferta de crédito. Veja como produzimos nossos textos na política editorial.
